terça-feira, abril 12, 2016


ama relo
quando eu era pequena tinha um polvo amarelo de lã em cima da cama. os tentáculos eram longas tranças e dentro da cabeça do polvo era onde eu guardava o pijama. quando eu era pequena fazia a cama todos os dias e punha o polvo em cima da colcha, não a meio, um pouco mais para cima, com as oito tranças muito bem esticadas e à mesma distância. quando eu era pequena usava totós e tranças.
não faço a cama todos os dias, embora ainda seja pequena, e os meus oito braços não esticam. uns esforçam-se por tocar, outros para não deixar cair. são elásticos sem o ser. por vezes enleiam-se. muitas vezes. outras vezes entrançam-se. e, como acontece quando encostamos as costas das mãos uma à outra e cruzamos os dedos, também os meus braços parecem ganhar vida própria, desobedecer à vontade, mexer quando não devem, parar quando não podem, recomeçar sem aviso, chegar perto demais, recuar sem eu ver.

sábado, abril 02, 2016

Urgência Tenho um poema a nascer-me no peito Mas não o quero escrever Porque é sobre ti E um poema sobre ti não é um poema É um feijão que uma criança enfiou no nariz e que não germinou, apodreceu Saiu primeiro pela pele em forma de febre Até ser extraído, em ambiente asséptico Com uma pinça London College Um corpo estranho Um acidente Um tilintar na bacia em forma de rim Não preciso de antibiótico Aprendi a cuidar de mim
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