terça-feira, setembro 27, 2016


julieta

dois gramas de beladona bastam
uma lasca de morfina sem retorno
morfeu em vez de romeu
hipnos somno em sono de ave
cama ardente de penas
que reclama o corpo de tânato
um corpo que tome aquele corpo
e o inflame


cada flor guarda o segredo das mortes não consumadas
e cada bolbo enterrado que não germina guarda o meu segredo

embala-me o cheiro doce e enjoativo
que se entranha nas fibras do tempo

as flores que não cheguei a pôr na jarra

dirão que as descurei que não as aproveitei
na verdade foi assim que me pareceu certo deixá-las
um molho de flores mortas sobre o armário da entrada

para lá da porta começa a estrada

sábado, setembro 03, 2016

astro
lábio

há vários dias que tento identificar o local preciso onde os contornos se tocam
(tenho o tempo da cozedura da massa para escre
ver)
a grande falha oceânica que desenha a fronteira
(enquanto a água não ferve e a sêmola não amolece)
mas foge-me a latitude e a longitude por entre os esconderijos do peito
(desfio as frases duras e lânguidas que deram guarida a outro fervor)
afundam-se num misterioso mar que engole planetas e estrelas
(desfaço-as para perceber o que gu

ardam dentro)

sinto-me fonte hidrotermal ecossistema de dias claros
que penetram o chão do mundo e ressurgem
trazendo consigo o clamor do fogo daquela profunda garganta aberta
golpe de asa golpe de fisga golpe de sol
a pele enrugada pela água confortada pela luz
e de novo imersa no silêncio morno da espera

mas não sei onde fica o lugar onde os contornos se tocam
(a água evaporou e a massa queima)

quinta-feira, setembro 01, 2016

funambolismos
há quem nos corte a corda antes do salto e há quem nos receba em rede inesperada. há quem nos corte a corda antes do salto e nos receba com uma rede esburacada. há quem nos ate a corda e há quem nos poupe o salto. e há quem salte connosco de qualquer alto.
?