moonwalk
gosto das escadas que me levam os passos, do chão automático que me impede de voltar atrás. debaixo dos pés, motores e engrenagens são como um céu que alimenta o caminho.
do outro lado da rua
todos os gestos
lenços presos com nós

corrida
hoje sonhei contigo. sonhei que te via e enquanto te via as minhas pestanas não paravam de crescer. eu tentava afastá-las e lutava para que a tua imagem não saísse dos meus olhos, aquela cortina a formar um muro, com o peso que não parava de aumentar. estavas do outro lado da rua, numa praça de táxis vazia e eu do outro lado da rua, na mesma praça de táxis, à espera de um que me levasse em sentido contrário. não consegui perceber se estarias só ou acompanhado, mas parecia que falavas com alguém. tinha muita vergonha do que me estava a acontecer, tinha as pestanas mais compridas que o cabelo, mas não conseguia sair dali, os pés colados ao passeio. usei de todos os gestos que consegui esboçar, mas as pestanas caíam-me pela cara e pelos ombros até à cintura e, por fim, até ao chão, competindo com as raízes de um plátano dentro da sua caldeira à esquadria. num fugaz momento pareceu-me que olhavas na minha direcção e o pânico instalou-se. não podias ver-me assim, com pestanas que não paravam de crescer e me pesavam tanto nas pálpebras. podias pensar que estava louca ou doente e isso seria tudo verdade, mesmo que as pestanas não me crescessem como lenços a sair da boca de um ilusionista. virei as costas e andei o mais naturalmente que pude, deixando um véu de linhas atrás de mim. as pestanas presas nas raízes.

três letras

baleias sorridentes
fazem o pino e caem-lhe os dentes
cão-pão, cara de avião
[homem aranha, 2006]

o dragão foi à casa do pão
e comeu a papa
do camaleão
[homem aranha, 2007]

passei o dia a abrir a janela para arejar a cabeça. o vento empurrou cortinas, longas peças de tecido de inverno, para dentro de casa. ficou frio cá dentro mas diverte-me atravessar a massa espessa e cinzenta que me ocupou todas as divisões sem pedir licença. vou a correr fechar a porta à chave e sair pela janela. sabe bem andar e não pensar em mais nada.

mudança na minguante

ditado
esqueçam a ortografia. fechem os olhos. verão que não há nada aqui. aqui quem manda sou eu. vou ditar-vos cinco linhas que podem escrever como quiserem, em que língua quiserem, da forma que preferirem, desde que escrevam na linha. sobre a linha. sobre o texto, nada a dizer, basta que o assimilem. que o incorporem. que o sintam. que o sejam. vejam a importância que vos dou. elevo-os ao grau de um termo que é muito mais que uma palavra. vejam como contam. um termo, que é texto e número, que designa um sujeito que desafia a ortografia. se isto não é liberdade.

instante
trago a barriga no colo. mesmo que as mãos se dupliquem e outros braços e pernas se espreguicem para além de mim. mesmo que a voz já não soe em etéreo ultra-som. são meus aqueles olhos que reclamam os meus gestos e o meu peito. é deles o sangue que corre nos meus braços redondos. são nossos os silêncios que se lêem sem luz.

sou barriga guarda-factos. um brinquedo de corda. dias enrolados e estreitos num mecanismo intricado. no meu armário os cabides estão todos para o mesmo lado.