era uma vez um homem que vivia num umbigo

um umbigo impecável, cicatrização perfeita, sem cotão, nem migalhas, nem qualquer tipo de desperdício. o homem passava os dias em círculos, acariciando os anéis concêntricos de carne ou embrenhado em estudos hipsométricos. tudo o interessava naquele umbigo e quando subia à pequena elevação central, espécie de altar à existência, sentia-se o homem mais alto do mundo, embora os olhos esbarrassem na pele rosada e fina, quase imberbe. dedicava também uma grande parte do tempo à higiene. limpava o umbigo de alto a baixo, todos os dias, com produtos não abrasivos e um pano quadrado de microfibra com o tamanho ideal para a sua mão. depois lavava o pano e lavava as mãos, num ritual quase religioso.
não tolerava invasões de qualquer espécie àquele espaço sagrado. não recebia amigos. o umbigo bastava-lhe. amava o umbigo.
por vezes olhava para cima. o exterior não lhe provocava grande curiosidade, mas fazia-o por uma questão de sociabilização que, segundo os especialistas, era essencial à sobrevivência humana. confiava nos especialistas. nesses dias vestia um pólo e umas calças e contemplava os fragmentos de pessoas que desfilavam pelo seu campo de visão. a visibilidade era reduzida, claro, mas achava graça ao facto de não ver mais do que via, desde que visse sempre o seu umbigo de qualquer ponto onde se encontrasse.
desenvolveu uma linguagem muito própria que, escusado será dizer, esbarrava não poucas vezes na linguagem dos outros. embates mais ou menos violentos, consoante a profundidade do umbigo a que se encontrava. nesses dias nem o pólo, nem as calças lhe valiam. ficava nu. exposto. totalmente vulnerável ao escrutínio alheio. sacudia o incómodo com a desenvoltura das suas certezas e regressava à sua casa de carne.
não cresceu muito, não podia. a alimentação pobre, quer para o estômago quer para a alma, deixara-o raquítico, mas ao espelho era maior que qualquer moldura e achava que não havia, nem neste mundo nem em qualquer outro, espelhos suficientemente grandes para si.
acabou por morrer de fome sem perceber. quando adoeceu achou-se injustiçado e, ainda assim, teimava em não receber os cestos de comida, remédios, amor, música e livros que lhe tentavam, em vão, fazer descer com recurso a uma corda, ao fundo do seu umbigo.
quando morreu cuidou que adormecia.
natureza morta

uma mulher de verde lava as portadas verdes
só a vejo quando passa pela parede
e enquanto lava
vejo um braço que acena
para dentro
da grande casa vazia
um pássaro pousa no cimo de um pinheiro
como uma estrela
simples enfeite
e hoje as nuvens resumem-se a riscos no céu
linhas brancas horizontais
pauta celeste por preencher
uma parte em diagonal da árvore-antena
como um tufão congelado no seu propósito
um sino dobra ave-marias gravadas
e a brisa desdobra-se em sopros estéreis
para empurrar um moinho de papel
ja
nela

um quarto branco
paredes brancas
chão branco
uma cama branca
uma c
ama branca
uma
arma branca
uma
ama
chão
pa
redes