tenho um coração externo que pulsa se o outro pára
a minha vida é como uma corrida de estafetas
arranco ritmos a pedras, paus, sombras e sopros
arritmias controladas

faz hoje anos que o mundo é mundo

pelo menos para mim


*patente na associação cultural Mercado Negro, em Aveiro, até 19 de Outubro.
3ª a Sábado: 13h - 00h
Domingo: 15h - 00h
R. João Mendonça, 17
3800-200 Aveiro

*Selecção dos poemas
Mercado Negro

*Design e ilustrações
Menina Limão

manhã

ofereceram-me um avental para a alma. faltam-me as luvas para abrir o forno.

escrevi-te uma carta. desenhei todas as letras de cada palavra sem levantar a caneta do papel (os tês e os is não contam). fechei o sobrescrito. agora têm umas tiras autocolantes e o valor do selo já impresso. saí com um vazio nas mãos, um buraco no sítio dos gestos sem peso. tapei-o com a senha da minha vez. sou a seguir.

como é que era mesmo? duas voltas para a direita, não, duas voltas para a esquerda. tonta, tonta. tocaste-me na ponta do nariz. o choque. ligada à terra com a chave na mão, sou condutora de electrões. é entrar, é entrar. cuidado com as correntes de ar.

raízes de flores comestíveis
entra. o universo não tem porta.
estava a fazer uma salada. queres?


[para r.]

estiquei o braço e toquei na estrada. estava quente.

ia distraída a olhar para o chão como sempre. naquele dia o sol nasceu-me aos pés. teimosa a vida rebenta-me na cara, não se insinua em imagens de calendário. flores que despontam, árvores despidas. gelo e orvalho.

continuo com a mala aberta, entre uma e outra viagem. o salto não chegou à margem, pousei na pedra a meio do rio, por um

instante.

aproveito para lavar a roupa sem apagar os odores. este espelho mostra-me uma pele diferente. que me dirá ele da próxima vez que me vir?
volto já

origamim

tradução
dentro da minha cabeça há um ponto onde as linhas convergem. não sofro de astigmatismo interior. mas as palavras saem difusas. sussurros, ruídos, silêncios. máscaras, resíduos do real acocorado no ângulo morto do retrovisor. desfazer a paisagem em panning. fade-out. music loud. credits roll.

engoliste-me com a tua boca azul. aqui em cima sou elástica. ao fundo há luz que mastigo com os olhos do meu corpo espelho.

frequência
de tanto andar sem me mover perdi o eixo do mundo. sentada numa caixa às cores onde tudo cabe. se a abrir saem sons de perto e de longe. uníssono desacerto.

rasto

e se os meus braços não param de crescer e se enterram e entrelaçam
nos caules e raízes
e se as pontas dos dedos há muito que os deixaram de sentir,
seguem cegas pelo meio das pedras

então os meus olhos seguem os dedos
são eles que descem gelados por mim
dois elevadores

vim de viagem com os olhos abertos. sempre abertos. olhos de dente-de-leão. vim de costas para o vento para não se perderem as coisas que trago para te mostrar. não me cabem nos bolsos, em malas, cestos ou sacos. tenho de as trazer assim, intactas.

ainda sinto os cabelos na cara
asas pétalas pálpebras pó
deixar correr o fio de voz
a correr

arrastado gosto este de trazer quilos e quilos de letras de chumbo agarrados aos dedos, daquelas que formam palavras incompreensíveis e que por isso mesmo trazem agarradas a si mais palavras que não se compreendem. tenho de lamber os dedos e regurgitar estas coisas. deixar um rasto lustroso no ecrã. queria tomar banho mas receio afogar-me.