carta

disseste que ias ouvir o mar
que lhe ias pedir uma coisa
já que era tempo de lua nova
de marés vivas
e eu andei com a letra do sting na cabeça um dia inteiro
à falta de melhor debussy
a expurgar imagens cheias de filtros ruído e camadas
imagens excessivamente retocadas que se sobrepunham
à imagem nua da tua mão 
a escrever duas linhas
a sublinhá-las
a enrolá-las
e a metê-las 
na garganta de uma garrafa






1.º de maio

farta até à cona
de cães sem cadastro
de gente sem lastro
de gente sem luz
de gente sem lente
de gente dormente
de gente decente 
de gente que mente
de gente gemente
de gente que mia
de gente acendalha
de gente canalha
gentalha fervente
em banho maria





neve nas terras altas
o frio parece que voltou
voltaram os cumes glaciares e as estalactites de gelo
como silên
cios
que escorregam com estrondo pelas costas
e provocam avalanches internas
voltou a vontade
de hibernar


Ilustração: Frédéric Forest

lei do menor esforço
estou cansada da minha visão raio-x
cansada da visão peri
férica
do meu talento para a hermenêutica
da engrenagem que sobe os cantos da boca à hora marcada
da engrenagem que desvia os olhos de nós
das cordas da teia
da minha intoler
ânsia
a gente marcial
do transtorno que me causa tanta in
tensão
doExcessoDeFerroNoPreparadoAlquímicoQueMeMantémMaiúscula
com a boca a saber a andaimes
de skylines sem céu
a visão como todos sabem apoia-se na memória
e eu ainda me surpreendo por não saber andar de andas
e por ver com olhos de pássaro mas as paisagens de dentro
estou cansada de viver por dentro das coisas
de lhes saber o fim das frases
estou cansada de f
ases
quero regressar à fisiologia dos dias
tecer-me toda com fios redondos
para experimentar outra vez a vertigem inebriante
que é rodopiar ao espelho numa saia nova
com a vida toda pela frente
































Fizeste-me uma cama de gato com feixes de laser, cordas de um ringue que todos os dias me incumbira a mim mesma de desenlear, escudo de costelas invisíveis, fitas de luz em torno do maior diamante do mundo. Falso. Um diamante falso, de plástico, lindo na sua cor impossível e tóxica, made in China, chegado por mar.
Vesti o meu fato completo de neoprene preto e ensaiei os passos de ninja durante meses. Nuns dias parecia fundir-me com o chão, sem outro som para além do libertar rigoroso da inspiração que me permitisse deslizar até ti como uma folha de papel sem espessura. Uma apneia de papel que dobrava em pássaros e conchas. Noutros, porém. 
Noutros dias, ainda com o balançar da última viagem a arrancar-me os pés de terra firme, eu insistia em rocegar o fundo do oceano, no meu eterno desencontro com o tempo do mundo. Em busca de um tesouro pequeno. Um tesouro. Pequeno. Rocegava o fundo dos dias em busca do maior diamante de plástico do mundo, na esperança de que a configuração dos feixes de laser combinasse com os espaços vazios do meu corpo, uma chave de luz que me me abrisse a todos os lençóis freáticos onde achava que dormias. Engano meu. 
Voltei aos livros para confirmar se não me terei enganado também na anatomia da tua voz. Sinto que feri um ponto vital porque deixei de ouvir a minha própria respiração e sei que respiro, porque o vidro embacia quando aproximo a minha boca. Tu estarás certamente do outro lado do vidro, do outro lado das cordas, do outro lado da cama, no fim dos feixes de laser.
c oração

Num quarto sem música e
coam pequenas agressões contínuas 
Um punho cerrado contra
Um punho
Um punho serrado sangra
Um punho bate contra o peito do lado de dentro
Contra as paredes de uma página em branco
Contra as costelas 
Ninguém o ouve
Um trabalho de parto impossível
Percussão com traumatismo
Ave presa em traumatropo
Cada batimento uma morte
Cada estremecer da folha um recomeço
Ao canto do quarto
Um papel amachucado pulsa





no ano em que o meu pai morreu
morri também eu
primeiro o corpo rec
usou-se

descia estradas em ponto morto
o alcatrão como mortalha a ferver
de boca em boca
rezava por um acto de deus
por uma sombra cilindro sem condutor
que o incluísse na paisagem em rolo
comia quilómetros nuvens de fumo olhares ínvios
as palavra de ordem nas paredes cegas
eclipses de espelhos
os excrementos dos cães com donos pela trela
os sacos de compras carregados de mulheres
os sapatos dos pobres e montras de armaduras
abocanhava a descida áspera de olhos fechados
à espera
os degraus de calcário branco e negro
apedrejando-lhe os dentes
empalado por mil corri
mãos
a língua enrolada no céu da boca
nuvem de carne descar
nada
à espera
do primeiro choro
lura

pois mas isso agora que im
porta?
fechaste-te na tua cápsula do tempo
e enterraste-te cheio de coisas no jardim do miradouro
à espera de um dia em que chegasses
munido de uma vara de vedor
e te encontrasses entre dois canteiros secos
(tens de rever o teu manual de magia)

é que a ubiquidade
embora exista
não se submete a mapas sabes
não se deixa carto
grafar
e respira
a ubiquidade respira
vive das constantes manobras de reanimação
entre lugares
não sobrevive com cadáveres agarrados
ainda que tudo o resto pulse e viva
nem com sopros cardíacos
por muito que o canto dos pássaros
abafe os ruídos parasitas
pelo menos durante o dia

aí em baixo o som chega-te abafado
por camadas estratigráficas pouco permeáveis a raízes novas
e não são ondas aquilo que julgas ouvir
mas antes os passos arrastados à superfície
do teu futuro
levantando nuvens castanhas de pó
cheias de tempestades contidas

fico aqui enquanto o sol estiver de frente
depois regresso à minha lura

mary-go-round

a cada volta aquela lâmina de luz e de esperança
no fim
o vislumbre do que seria o futuro
se a lâmina não fosse romba
se não fosse só a mim que fizesse sangrar
se o carrossel parasse no enfiamento daquela estrada
se o carrossel parasse e se tu entretanto não descesses a rua
se eu não descesse do carrossel demasiado tonta
as mãos 
pega
josas do gelado que escorreu e secou
o sabor da infância nas minhas mãos sujas
a doçura 
esfrega
da nas calças por ser incómoda
por ser pegajosa
por já não ser doçura pura
a vergonha de estender a minhas mãos sujas
de doçura pegajosa

(no ciclo comecei a aprender inglês com o livro de capa cor-de-laranja
um carrossel na capa
e a professora alice olga que me proibiu de estudar
comecei também a desenhar grandes círculos em cima dos is

em educação visual tentaram desenhar o meu retrato 
e eu que não gostava do antónio miguel 
porque era dos que dava apalpões
cada dia levava um penteado diferente 
para que não conseguisse roubar-me o contorno
o contorno dele era facílimo de desenhar
um grande círculo duas orelhas pequenas dois olhos muito juntos
o contorno dos rapazes é sempre mais fácil de desenhar

mais tarde pro
meteram
fotografar-me
depois pro
meteram
desenhar-me
depois pro
meteram
fotografar-me – ainda no tempo da película
depois pro
meteram
fixar-me em polaroids e pro
meteram 
desenhar-me
depois pro
meteram 
desenhar-me
--rapazes--

o meu contorno deve escorrer e secar 
de cada vez que me atiram uma promessa destas
esfregam-me às calças
fico disforme e pegajosa
esfregam-me às calças para se livrar de mim)

Monólogo para Uma Actriz
[Texto escrito para a participação do colectivo «Se Eu Escrevesse Tu Dizias» no Festival Condomínio, Évora, 21 de Abril de 2017]


Cheguei aqui a andar.
(Cheguei aqui a andar.)

Vim de longe e com ba
lanço.
Vim de trás para a f
rente, de baixo para cima.

Quando parei não re
parei
que estava parada e continuei.
É preciso pegar no co
mando, às vezes.
Fazer pa
usa.
Ver as coisas frame a frame, dia
positivo
a dia
positivo,
in
tenção
a in
tensão,
verbo a verbo.

A minha vida são duas linhas paralelas,
duas estradas planas, dois car
ris ao sol
que nunca se encontram.
O tempo pen
dourado.
O tempo pendurado numa linha.
A pender sobre a minha cabeça.
Na outra linha o tempo que me resta.

Pas
sei
de carro numa estrada a sub
ir
e vi um objecto preso a um eixo
em movimentos aflitos de urgência, de com
passo de esperança,
de demora ou de emboscada.
Pas
sou na minha cabeça
uma teo
ria das coisas em espera
enquanto observava, naqueles três ou quatro segundos,
o estranho objecto negro preso a um eixo:

_Um drone no meio de um descampado.
_Um drone enleado na program
acção
da rota.
_Um olho-câmara preso num ponto in
visível.
_Um olho-scanner a varrer micro
teatros de guerra.
_Uma mão electrónica a sorver energia da t
erra.
_Uma mão mecânica retro
compatível,
com dedos cheios de artroses calculadas.
_Um ped
aço
de um corpo desmembrado as
sente
num feixe magnético.
_Uma pedra de um rio f
rio
que se perdeu no elemento.

Era um pássaro.
(Era um pássaro.)

Vi-o com a minha visão peri
férica.
Distingui-o com a visão in
terna.

Batia incessantemente as asas sem sair do lug
ar.
Um brinquedo que finge que voa
preso a um braço pequeno
que tudo al
cansa.
E no en
tanto
parecia
que
naquele
instante
se
parasse
o mundo
caía.

Omundopresoporumcordelàssuaspatas.
Todoopesodomundosuportadoporummovimentodeasas.
Asvidastodassuspensasnumvooperfurante.
Aesferadomundoesmagadapelaausênciadepesodaquelepássaroúnico.
Umsópássaro.
Umpássaro
só.
dormir ao relento coração ao vento
o sol come-lhe a cor
a chuva empapa-lhe os passos
a bruma amortalha-lhe o sono
feito de muitas vigílias

preciso de uma janela
nestas paredes cardíacas
uma janela larga
com vidros de ver só por dentro
e véus pendurados por fora
presos no para
peito
com nós
tive um sonho tripartido
três acções em simultâneo atrás da película de sono
que me deixaram nas mãos três imagens em cutelo

numa um homem submergia
num mar branco
de esferovite
o rosto decalcado num pano hirto
sujo
um sudário que não afundava
uma jangada sem fundo
presa pelos olhos ao céu


noutra estava perdida
tinha pressa
transpirava
as ruas bifurcavam-se como línguas
as pessoas voltavam-se à minha voz
mas só tinham costas
as pessoas eram casas

na terceira estavas comigo
e dormias
numa cama maior que o quarto
eu não cabia na cama
dormia dentro de ti
tu eras o meu quarto sem cama
eu era uma cama-jangada

lura

pois mas isso agora que im
porta? abriste-me
essa nesga de ti
de onde se avista um mar inteiro
e eu tropecei nos esc
olhos
não cheguei a fe
rir-me
mas senti assomarem-se as lágrimas
depois não eram lágrimas
era eu que nadava debaixo de água
de olhos abertos mesmo sabendo
que o sal os castiga
vi um navio naufragado e várias âncoras com histó
rias
de muitas t
erras
e fragas de contornos instáveis
vistas de baixo pela lente de água
vi bombas de guerras antigas cobertas de algas
ou almas cobertas pelas ondas
mas almas que eram só vozes em loop
diziam-te
diziam todas as palavras de que és feito
(eu perguntava-me onde estariam as vozes que me dizem a mim)
depois não eram vozes era vento
e eu uma vela nova pálpebra pronta a recebê-lo
o ar frio a consolar-me a pele
a teia e a trama a remendar-me as pausas
a disfarçar os desacertos do sonho
a casear as bainhas por onde passar o cordame
que nos atava as mãos ao leme
nas correntes contrárias da foz

o sol sei que partilhamos
naquela pedra branca e quente
que fica de frente para o rio
(o adamastor nas nossas costas)
e a lua é a clara
bóia
por onde respiram os nossos braços sedentos

a minha lura sei que fica ao lado
de uma nascente

árvore

porque no fim é só connosco que nos deitamos
com aquele que nunca dorme
que não se pespega no espelho a gritar-nos que somos tronco e membros
que não embacia o vidro
é menos denso que o vento
que não precisa de falar em surdina
para nos ensurdecer
que nos amordaça sem mãos
que nos engole sem boca
que nos digere inteiros sem a acidez do tempo
os vinte e um gramas de gente que pesam mais 

que todos os céus plúmbeos de toda a literatura
mesmo a que não vive


sou cada vez menos o meu corpo
mesmo que cada vez mais o sinta
sou cada vez mais aquela que desa parece
nas páginas rasuradas da agenda
acordo folha filha de papel
adormeço folha mão amachucada
una os pontos
1
pari-me um nada morto
um pedaço de carne só coração
cujo movimento re
pugna
sou assimétrica in
acabada
2
a minha mãe
perdão a minha mão
não soube arrancar-me
do fundo do ventre redondo e turvo
onde me agarrei
3
a minha mão segura apenas um coração
e não sabe o que fazer com ele
a minha mão segura-se ao coração
4
cada vez que te enganas a ler-me
eu morro
depois renasço como posso
e deixo que me leias de novo
só para poder ver os teus olhos
5
cada vez que te enganas maior é a tua certeza afiada
tens de sentir (tens de sentir) como a tua certeza (errada)
corta o atilho que me prende a alma a um dedo
6
sente
7
piso as presas da calçada
uma_______a______uma
pisarorisconãovale
8
cada vez que nasço
põem-me num frasco
já não sei como se faz para nascer inteira
vou nascendo às prest
acções
9
confio nos números nos rótulos dos frascos
harp

cosmic strings
threads of me
my spirit
cut in perfect lines
by the relentless
paper shredder


tensioned gazes fill my heart
waiting for timeless fingers
to erase all these clouds
of white noise
one day i will sound again
as one
frutose

existo só 
nos gomos de vida
em que os outros me incluem
o resto do tempo vou-me acomo
dando
no ped
aço de algodão doce
de onde só saio
quando tiver raízes 

os dias cítricos 
ardem em círculos 
e largam sementes que não ger
minam
mer
maid

caem prédios queimados
caem montanhas
enquanto eu desabo em es
camas

faz re
tenção de dia
críticos
li
malha de ferro de
encontro
ao corpo
por d
entro
gr
aves facas de lançador de facas
agudos pr
egos de cama de faquir
tremas
circunflexas sen
sanções

evita campos magnéticos
sobre
vive
sobre o magma
não tem ponto de fusão
mal consigo abrir os olhos para escrever
não dormi não tive espaço
a cabeça cheia de discos de view
magic
a cores
braços redondos em volta de braços
duas bocas à volta de um desejo
que se formulou com imperceptíveis nadas

a tua voz enrolada na minha
sobre a mesa
o rio
enorme leito de azul
a mostrar-nos como só se vive avançando
até se nascer de novo dentro de um mar
muitas vezes

dedos nos lábios
(enquanto não se disser não pode ser mentira)
mãos nos bolsos
(enquanto não se tocar não pode esfumar-se)
olhos nas mãos nos dedos nos outros olhos

escrevo-te deste torpor deste quase sono
sem saber bem se adormeço ou se acordo