lura

pois mas isso agora que im
porta?
fechaste-te na tua cápsula do tempo
e enterraste-te cheio de coisas no jardim do miradouro
à espera de um dia em que chegasses
munido de uma vara de vedor
e te encontrasses entre dois canteiros secos
(tens de rever o teu manual de magia)

é que a ubiquidade
embora exista
não se submete a mapas sabes
não se deixa carto
grafar
e respira
a ubiquidade respira
vive das constantes manobras de reanimação
entre lugares
não sobrevive com cadáveres agarrados
ainda que tudo o resto pulse e viva
nem com sopros cardíacos
por muito que o canto dos pássaros
abafe os ruídos parasitas
pelo menos durante o dia

aí em baixo o som chega-te abafado
por camadas estratigráficas pouco permeáveis a raízes novas
e não são ondas aquilo que julgas ouvir
mas antes os passos arrastados à superfície
do teu futuro
levantando nuvens castanhas de pó
cheias de tempestades contidas

fico aqui enquanto o sol estiver de frente
depois regresso à minha lura


mary-go-round

a cada volta aquela lâmina de luz e de esperança
no fim
o vislumbre do que seria o futuro
se a lâmina não fosse romba
se não fosse só a mim que fizesse sangrar
se o carrossel parasse no enfiamento daquela estrada
se o carrossel parassese tu entretanto não descesses a rua
se eu não descesse demasiado tonta
as mãos pegajosas do gelado que escorreu e secou
o sabor da infância nas minhas mãos sujas
a doçura esfregada nas calças por ser incómoda
por ser pegajosa
por já não ser doçura pura
a vergonha de estender a minhas mãos sujas
de doçura pegajosa

(no ciclo comecei a aprender inglês com o livro de capa cor-de-laranja
um carrossel na capa
e a professora alice olga que me proibiu de estudar
comecei também a desenhar grandes círculos em cima dos is

em educação visual tentaram desenhar o meu retrato 
e eu que não gostava do antónio miguel 
porque era dos que dava apalpões
cada dia levava um penteado diferente 
para que não conseguisse roubar-me o contorno
o contorno dele era facílimo de desenhar
um grande círculo duas orelhas pequenas dois olhos muito juntos
o contorno dos rapazes é sempre mais fácil de desenhar

mais tarde prometeram fotografar-me
depois prometeram desenhar-me
depois prometeram fotografar-me – ainda no tempo da película
depois prometeram fixar-me em polaroids e prometeram desenhar-me
depois prometeram desenhar-me
rapazes

o meu contorno deve escorrer e secar 
de cada vez que me atiram uma promessa destas
esfregam-me às calças
fico disforme e pegajosa
esfregam-me às calças para se livrar de mim)

Monólogo para Uma Actriz
[Texto escrito para a participação do colectivo «Se Eu Escrevesse Tu Dizias» no Festival Condomínio, Évora, 21 de Abril de 2017]


Cheguei aqui a andar.
(Cheguei aqui a andar.)

Vim de longe e com ba
lanço.
Vim de trás para a f
rente, de baixo para cima.

Quando parei não re
parei
que estava parada e continuei.
É preciso pegar no co
mando, às vezes.
Fazer pa
usa.
Ver as coisas frame a frame, dia
positivo
a dia
positivo,
in
tenção
a in
tensão,
verbo a verbo.

A minha vida são duas linhas paralelas,
duas estradas planas, dois car
ris ao sol
que nunca se encontram.
O tempo pen
dourado.
O tempo pendurado numa linha.
A pender sobre a minha cabeça.
Na outra linha o tempo que me resta.

Pas
sei
de carro numa estrada a sub
ir
e vi um objecto preso a um eixo
em movimentos aflitos de urgência, de com
passo de esperança,
de demora ou de emboscada.
Pas
sou na minha cabeça
uma teo
ria das coisas em espera
enquanto observava, naqueles três ou quatro segundos,
o estranho objecto negro preso a um eixo:

_Um drone no meio de um descampado.
_Um drone enleado na program
acção
da rota.
_Um olho-câmara preso num ponto in
visível.
_Um olho-scanner a varrer micro
teatros de guerra.
_Uma mão electrónica a sorver energia da t
erra.
_Uma mão mecânica retro
compatível,
com dedos cheios de artroses calculadas.
_Um ped
aço
de um corpo desmembrado as
sente
num feixe magnético.
_Uma pedra de um rio f
rio
que se perdeu no elemento.

Era um pássaro.
(Era um pássaro.)

Vi-o com a minha visão peri
férica.
Distingui-o com a visão in
terna.

Batia incessantemente as asas sem sair do lug
ar.
Um brinquedo que finge que voa
preso a um braço pequeno
que tudo al
cansa.
E no en
tanto
parecia
que
naquele
instante
se
parasse
o mundo
caía.

Omundopresoporumcordelàssuaspatas.
Todoopesodomundosuportadoporummovimentodeasas.
Asvidastodassuspensasnumvooperfurante.
Aesferadomundoesmagadapelaausênciadepesodaquelepássaroúnico.
Umsópássaro.
Umpássaro
só.
dormir ao relento coração ao vento
o sol come-lhe a cor
a chuva empapa-lhe os passos
a bruma amortalha-lhe o sono
feito de muitas vigílias

preciso de uma janela
nestas paredes cardíacas
uma janela larga
com vidros de ver só por dentro
e véus pendurados por fora
presos no para
peito
com nós
tive um sonho tripartido
três acções em simultâneo atrás da película de sono
que me deixaram nas mãos três imagens em cutelo

numa um homem submergia
num mar branco
de esferovite
o rosto decalcado num pano hirto
sujo
um sudário que não afundava
uma jangada sem fundo
presa pelos olhos ao céu


noutra estava perdida
tinha pressa
transpirava
as ruas bifurcavam-se como línguas
as pessoas voltavam-se à minha voz
mas só tinham costas
as pessoas eram casas

na terceira estavas comigo
e dormias
numa cama maior que o quarto
eu não cabia na cama
dormia dentro de ti
tu eras o meu quarto sem cama
eu era uma cama-jangada

lura

pois mas isso agora que im
porta? abriste-me
essa nesga de ti
de onde se avista um mar inteiro
e eu tropecei nos esc
olhos
não cheguei a fe
rir-me
mas senti assomarem-se as lágrimas
depois não eram lágrimas
era eu que nadava debaixo de água
de olhos abertos mesmo sabendo
que o sal os castiga
vi um navio naufragado e várias âncoras com histó
rias
de muitas t
erras
e fragas de contornos instáveis
vistas de baixo pela lente de água
vi bombas de guerras antigas cobertas de algas
ou almas cobertas pelas ondas
mas almas que eram só vozes em loop
diziam-te
diziam todas as palavras de que és feito
(eu perguntava-me onde estariam as vozes que me dizem a mim)
depois não eram vozes era vento
e eu uma vela nova pálpebra pronta a recebê-lo
o ar frio a consolar-me a pele
a teia e a trama a remendar-me as pausas
a disfarçar os desacertos do sonho
a casear as bainhas por onde passar o cordame
que nos atava as mãos ao leme
nas correntes contrárias da foz

o sol sei que partilhamos
naquela pedra branca e quente
que fica de frente para o rio
(o adamastor nas nossas costas)
e a lua é a clara
bóia
por onde respiram os nossos braços sedentos

a minha lura sei que fica ao lado
de uma nascente

árvore

porque no fim é só connosco que nos deitamos
com aquele que nunca dorme
que não se pespega no espelho a gritar-nos que somos tronco e membros
que não embacia o vidro
é menos denso que o vento
que não precisa de falar em surdina
para nos ensurdecer
que nos amordaça sem mãos
que nos engole sem boca
que nos digere inteiros sem a acidez do tempo
os vinte e um gramas de gente que pesam mais 

que todos os céus plúmbeos de toda a literatura
mesmo a que não vive


sou cada vez menos o meu corpo
mesmo que cada vez mais o sinta
sou cada vez mais aquela que desa parece
nas páginas rasuradas da agenda
acordo folha filha de papel
adormeço folha mão amachucada
una os pontos
1
pari-me um nada morto
um pedaço de carne só coração
cujo movimento re
pugna
sou assimétrica in
acabada
2
a minha mãe
perdão a minha mão
não soube arrancar-me
do fundo do ventre redondo e turvo
onde me agarrei
3
a minha mão segura apenas um coração
e não sabe o que fazer com ele
a minha mão segura-se ao coração
4
cada vez que te enganas a ler-me
eu morro
depois renasço como posso
e deixo que me leias de novo
só para poder ver os teus olhos
5
cada vez que te enganas maior é a tua certeza afiada
tens de sentir (tens de sentir) como a tua certeza (errada)
corta o atilho que me prende a alma a um dedo
6
sente
7
piso as presas da calçada
uma_______a______uma
pisarorisconãovale
8
cada vez que nasço
põem-me num frasco
já não sei como se faz para nascer inteira
vou nascendo às prest
acções
9
confio nos números nos rótulos dos frascos
harp

cosmic strings
threads of me
my spirit
cut in perfect lines
by the relentless
paper shredder


tensioned gazes fill my heart
waiting for timeless fingers
to erase all these clouds
of white noise
one day i will sound again
as one
frutose

existo só 
nos gomos de vida
em que os outros me incluem
o resto do tempo vou-me acomo
dando
no ped
aço de algodão doce
de onde só saio
quando tiver raízes 

os dias cítricos 
ardem em círculos 
e largam sementes que não ger
minam
mer
maid

caem prédios queimados
caem montanhas
enquanto eu desabo em es
camas

faz re
tenção de dia
críticos
li
malha de ferro de
encontro
ao corpo
por d
entro
gr
aves facas de lançador de facas
agudos pr
egos de cama de faquir
tremas
circunflexas sen
sanções

evita campos magnéticos
sobre
vive
sobre o magma
não tem ponto de fusão
mal consigo abrir os olhos para escrever
não dormi não tive espaço
a cabeça cheia de discos de view
magic
a cores
braços redondos em volta de braços
duas bocas à volta de um desejo
que se formulou com imperceptíveis nadas

a tua voz enrolada na minha
sobre a mesa
o rio
enorme leito de azul
a mostrar-nos como só se vive avançando
até se nascer de novo dentro de um mar
muitas vezes

dedos nos lábios
(enquanto não se disser não pode ser mentira)
mãos nos bolsos
(enquanto não se tocar não pode esfumar-se)
olhos nas mãos nos dedos nos outros olhos

escrevo-te deste torpor deste quase sono
sem saber bem se adormeço ou se acordo
vi
ver

voltar aos vasos partidos
às treliças retorcidas
ao fruto do venda
val
que passou e que eu não vi


comer o fruto sem casca
colar os vasos com cuspo
desenrolar as treliças
e passar dias a ferro
para os vestir ainda quentes

(9-2-13)
vantagens de se ser transparente

podemos andar nus que ninguém repara
não se perde tempo de manhã

não precisamos de espelhos
nunca nos vemos velhos

trazemos o coração à vista
e quem quiser notar nota
(se o nosso coração pára)
quem não quiser não nota

não ficamos mal nas fotografias
nem saímos mal na fotografia
podemos sair à francesa
podemos comer como abades
ser feios como as portas
ter as pernas tortas

e podemos ser mosca

menor propensão para a obesidade mórbida
menor propensão para perder chaves
maior tolerância ao sol
maior tolerância ao álcool
e nada de ressacas

podemos pregar sustos e atravessar paredes
não temos de esconder os piretes

não guardamos não acumulamos não ocupamos
não sobramos nem soçobramos

sopramos a soprana existência sobre velas desenfunadas
em chama
mukashi mukashi

passos que furam o chão
fee-fi-fo-fum
os teus sapatos gastam-se
sempre do mesmo lado
queres atar-me a linha do ponto a ao ponto b
ao pescoço
mas eu (ainda) sei saltar ao elástico
até terceiros
e chega bem


mãos que rasgam envelopes
o meu nome rasgado ao meio
o meu nome sem casa
e a casa em triângulo
que faz desaparecer coisas
pelos teus bolsos sem fundo
areops!

o efeito da erosão
na tua escova de dentes
das palavras que ranges
enquanto eu bato nos ouvidos
para que a percussão abafe essa tua fúria
essa necessidade de atrito

atiras-me o teu rasto de nada
para que tropece
mas eu (ainda) sei saltar à corda:

ursa entra no jogo
ursa arredonda a saia
ursa dá meia volta
e ursa sai do jogo
na próxima à esquerda

a calçada portuguesa não se compadece das nossas bolhas de vidro
tem buracos que travam as trajectórias red
ondas
berços de viagens por fazer
as arestas das pedras mal ni
veladas reduzem o desejo a vidro moído
desviamo-nos dos círculos dentro deste almofariz
para nos perdermos em elipses forçadas
e evitar algumas ruas

«ai a merda»

aqui vai o poema
querido amigo
que retirei da cartola daquele impulso
mais vale tarde porque nunca é tarde
o tempo em que estamos não é mais que o nosso tempo
aquele com que forramos cada encontro
e vamos escorando os deslizamentos de horas
passei dias a tocar-lhe ao de leve
eu
braço articulado de uma máquina de peluches
à procura de um corpo sem lugar cá em casa

hoje sentou-se à minha frente uma mulher mais velha que eu
a cara não condizia com as pernas nuas
e o peep toe mostrava umas unhas demasiado compridas
sentou-se na fila em frente da sala de espera
e eu esbarrava nela sempre que me erguia do livro
cheirava a decadência tinha um ar salgado e seco
e alguma doçura cristalizada no modo como se movia
ou se calhar era ao contrário
a mulher não sabe que vive agora num poema
eu nunca saberei quem é aquela mulher de pernas nuas
a quem desejei arrancar a pele do rosto
para perceber se seria jovem por dentro

quanto ao meu repertório de setas
guardo-o entre aspas no bolso de dentro junto ao peito
minúsculos braços articulados
que me salvam de viver empalada

[poema a pedido, 24 de agosto de 2015]
imago

acendi uma vela de silên
cio para poder escrever-te estas linhas
como não tenho papel es
culpo-as a estilete na memória
hei-de soprar-tas para a tua boca
se as vires por dentro talvez percebas que vivem
não são letra morta nem recibo de portagem
são uma cancela automática com garantia de cinco anos
que se abre e fecha com comando à distância


revol
vi uma vala de silêncio para poder estar aqui intacta
de rede em
riste para caçar borboletas
não é com revól
ver que se apanham
os efémeros instantes de pó que prendo com alfinetes ao peito

guardo os que se partem num atlas pesado
e procuro o lugar do livro na estante tacteando
com a ponta dos dedos e as pétalas dos olhos fechadas
as pétalas páginas do meu corpo dividido

deixas-me
em suspenso numa crisá
lida de fogo
ceci n'est pas une porte

o rímel em quarto minguante debaixo dos olhos
sorrisos negros à esquerda e à direita
mascara sem acento a escorrer pela cara