traz um melro no cabelo
enfeite de asas e penas
sobre longos braços louros
animados pelo vento
traz um melro no cabelo
enfeite de penas e asas
sobre as apertadas tranças
que lhe escoram o momento
traz um melro no cabelo
e não sente as duras garras
que se cravam na cabeça
fiéis só ao equilíbrio
espreita pelas frestas dos ramos
vive nas copas do tempo
sonha com dias inteiros
esvai-se na seiva dos dedos


tenho uma heidelberg
no lugar do coração
um
pace
maker
ana
lógico
especialista em impressão
imprimo mensagens a cores
em papel de algodão
saem-me pelos poros a preto
suores frios de papelão


este
des
as

sossego

este
des
as
so
ss
ego
cego


despertar

dentro do corpo o corpo gasta
dentro do corpo o corpo gosta
dentro do corpo de lixa o corpo aplaina
dentro do corpo de folha o corpo corta
dentro do corpo o corpo de
lira
dentro do corpo o corpo de
canta
dentro do corpo o corpo en
contra
dentro do corpo o corpo a
corda

os braços curtos não chegam aos braços
do corpo maior que o corpo



sou o fiel
de uma balança de três pratos
trabalho, trabalho e trabalhos

a bailarina das pernas coladas
que se desdobra em espelhos

pequena figura de plástico
que ao longe
quase tem graça

pequena figura sem peso
que espera





o fim da música
a tampa da caixa




true colours
insuflar os dias
como balões
deixá-los voar
deixar que se percam
deixar que se prendam
em ramos de árvores
em cabos telefónicos
deixar que caiam
em dedos anónimos
ou segurá-los com um cordel
ao pulso
e vê-los perder o ar
mas não a cor
pegar em ti
colar-te
pôr-te em cima de uma mesa
com uma mão
apoiar a cabeça
e com a outra
percorrer as linhas
no teu corpo
fronteiras
de países sem terra
mapa de mágoas

a rua doi-me
e doem-me algumas ruas

no espelho cruz
am-se
a latitude
e a longitude
despacho
o passo
desvio
o passo
designo
o passo
desenho
o espaço
part ida

parte de mim
resvala
parte de mim
resiste
as árvores que viste plantar choram hoje a tua partida, lágrimas de flores que hás-de sentir sob os teus pés. a mim hão-de faltar-me os teus braços fortes onde pendurei o meu baloiço, olhar para cima e ver os teus olhos de céu. vai, querida árvore da minha vida, raiz profunda. deixa-me o teu desassombro sem fim.

janela

reparei hoje que tens um olho de cada cor. com um vês-me por fora, com o outro vês-me por dentro. não sei qual é qual, sei que os meus se atam aos lenços que saem da tua boca, presos por nós, quando me dedicas esses mirabolantes números de magia. palavras vestidas de cordas. laços azuis e verdes.

prometi que ia passar o dia muda. a minha boca seria uma janela fechada, terias de ler-me nos olhos, na pele, aquilo que quisesses saber. não te vi nesse dia. cada hora que passava acoplada à seguinte com um clique, numa corrente que me asfixiava os gestos. a música a doer-me nos poros como água oxigenada, o vento a lembrar-me que tenho corpo e que o corpo respira. nunca mais prometo nada, prometo. agora é noite e a luz é da cor que eu quiser.

acordei sobressaltada, a janela escancarada, as cortinas desesperadas por tocar a fachada em frente. levantei-me entorpecida e fechei a janela, devolvendo as cortinas brancas ao vidro e à parede. voltei para a cama e tapei-me até ao nariz para assistir ao teatro de sombras. preto no branco. um ramo, uma folha, um ramo, uma folha, um ramo, uma folha, um r amo, uma f olha, umr amo, umaf olha. amo. olha.






nota: a imagem não é minha. não sei de quem é.

uma multa e três
flores de jacarandá
no meu pára-brisas
no peito não pára
a corrente
de ar




ver
se

sãodiassãoh orassão d ias
semanassemanas emanas

des
colei um
penso
do br
aço
puxei com cui
dado
não saía
puxei com mais
força

arrancou-me
um ped
aço


flores mortas
alimentam raízes

suspenso
pensamento
fio de prumo
fio de vento

travessia
prendeu a ponta do arame no para peito, a outra ponta presa ao ramo mais corajoso. lá em baixo todos aplaudiriam, embora ainda não soubessem o que se preparava para acontecer sobre as suas cabeças, nem soubessem tão pouco que o corpo é capaz de tais prodígios, como olhar para cima. fez uns breves exercícios de aquecimento, ensaiou os passos e o retomar do equilíbrio com uma rápida flexão dos joelhos. hesitou em relação à lista de nove páginas que teria de levar consigo: quatro numa mão e cinco noutra? ou ao contrário? decidiu levar as nove páginas na mão esquerda, da qual mais facilmente se esquecia. a outra ficaria livre para comandar mecanicamente o gesto. respirou fundo, acariciando com essa respiração a camada espessa de contentamento que lhe forrava o desígnio.
dali a nada estava a meio do arame, os pés em breve acento circunflexo. se tremia não se via. não se via. muito ao longe um dirigível vermelho cortava o lençol de vento que decidira, à falta de melhor dispositivo de segurança, suspender a trajectória para acolher aquele intrépido trapezista sem rede. coisa nunca vista. os cinco últimos passos foram breves como colcheias, o restolhar das folhas confundindo-se com o restolhar da lista, o rombo dos aplausos anunciando-se na batida cardíaca. chegado ao ramo desprendeu o arame que de novo se colou à fachada do prédio. ali ficou muitos anos, misturado com os cabos eléctricos e os fios telefónicos, guardiões de outros impulsos.