desliguei o céu por um instante
perfurei a película e senti
escorrer-me pelo braço o líquido
que cola os dias

tenho as manhãs coladas às noites
um calendário muito magrinho

conta-me. os voos amortecidos na pele áspera
não me incomodam. incomodam-me as horas rasteiras que se esfregam em mim com violência. o atrito. claro que um sorriso teu, um chamar, tudo muda. abre-me uma caixa no peito maior que a nossa casa. estou aqui, inteira, tua, são teus todos os meus gestos. não sei onde os guardas. és tão pequenino. maior que eu.

ando aos poucos a deixar-me de coisas
não é fácil vestir roupa sem bolsos. fico sem saber o que fazer com as mãos
as minhas mãos sempre foram âncoras. faz-me impressão vê-las velas
enfu nadas

onde andas?
red onda.

read my lips
no meu corpo rasgam-se bocas em sítios improváveis.













pimp myspace with Gickr

fora de foco

fado

contra-luz

cinemática linguístico-estática
os sentidos apurados para a distância. percorrer muitas páginas e saber que faltam outras. tantas. a estrada a desfazer-se em quilómetros que parecem vomitar mais quilómetros. ainda. dizer com as mesmas palavras, mesmo não sendo as palavras as mesmas. é isto que faço aqui sentada.

dedos de cal pintada
sopram beijos alcalinos
muros como camas
comportas
o sol branco ainda quente
nas minhas costas

estio

asas de cigarra
preenchem-me os dias sem fumo
a cabeça pende-me de pura dolência
não fosse o crepitar debaixo dos pés
seria
inteira
sonâmbula
assomada pelo fogo

assim deixo-me ir
do tamanho das folhas
protegida por sombras acidentais

há pessoas que sabem ler de dentro para fora. pessoas que não precisam de palavras como escoras. peguei neste teu poema e fechei-o novamente na caixa. abri-lo-ei de novo quando me apetecer rir e chorar ao mesmo tempo. ver-me por dentro sem vomitar.


obrigada, c.

traduttore traditore
e, na espera, entre duas respirações, dobrei-me em asas de papel. o silêncio a pesar-me nas pálpebras, mas o fio da história a picar-me todos os poros, cosendo inutilmente palavras à minha memória externa. não sei por que razão não consigo lembrar-me dos filmes como as outras pessoas. uma ou duas imagens, por vezes só um sent ir.

perfur ar
acordava redonda e invisível. sem arestas. sem peso. os amigos reconheciam-na por um ou outro reflexo, se a luz por acaso incidia sobre ela no ângulo certo. bastava um sopro, uma intenção, um entreabrir de lábios. tarde de mais.

para a frente
trevos e azedas debaixo dos pés
um
pouco mais que pele como bandeira
dois
um, dois
um

wonderful town
isto passou-se em lisboa. um homem com pés de pássaro passou por mim na rua. levava um vaso com uma orquídea branca muito alta que lhe indicava o caminho. segurava o vaso com as duas mãos. ainda não o sabia, mas deixara o porta-chaves esquecido em cima do balcão da loja, na atribulação do multibanco, da hora tardia, das redes saturadas. a loja estava a fechar quando entrou decidido a levar a orquídea branca e a empregada fizera o especial favor de atender aquela urgência. teria de tocar à campainha ou chamar os bombeiros para lhe arrombarem a porta. atravessava a estrada, numa rua perpendicular à minha, no momento em que o meu sinal mudou para verde, mas não apareceu no retrovisor. eu vinha do cinema. ele ia nessa direcção.

e tocar-te assim com vidro de permeio.
beijar-te os cristais de açúcar que trazes presos nos olhos
pousa quando quiseres no meu para
                      peito. estarei sempre pronta para a fotografia

azul

quando mudei de casa
levei comigo o meu cão de loiça à escala
de encontro ao peito, para não partir
descobri que tem orelhas como búzios
cheias de um mar refém