ouço
o bater dos meus braços estéreis de voos
já vou!

di gestão
"Figura 6. A não-concavidade permite a existência de múltiplos pontos de coerência diferentes"

ama

clique

pegas em mim
outra vez
amas
sas-me
mas antes
se
paras-me
por cores
verme
lho
azul
ama
relo
ama
relo
azul
verme
lho
por cores
se
paras-me
mas antes
amas
sas-me
outra vez

mar
entre mim e m i m
espuma ou esponja
enquanto amorteço

rem
entre mim e mim
uma pálpebra corre
enquanto me opero

lado b
entre mim e mim, uma película autocolante
dupla face
talvez por isso não pertença





[foto: homem aranha]

firme
sentada à beira da cadeira, com as costas direitas como deve de ser.
o meu corpo não ocupa a cadeira, simplesmente lhe toca porque tem de ser.
sentada à beira. sem cair. como deve de ser.
não cruzo as pernas. não encolho os ombros. não estalo os dedos.
se respiro ninguém nota. se sopro ninguém sente.
se baloiço ninguém vê.

virei-me para a parede. alisei pacientemente a prata com o polegar. quando estava bem lisa, praticamente nova, dobrei-a em três. dobrei-a mais uma vez, ao meio. e novamente ao meio, no sentido contrário. senti o quadrado transformar-se em cubo. mágico.

um de maio

liberdade é poder
ser

fora
detestava fazer marcha-atrás, mas preferia os olhos do espelho.

dentro
ouvia em eco, não se sabia porquê. ouvia as respostas dos outros enroladas nas suas próprias perguntas. aprendeu a ouvir com os olhos.

dia ao contrário
hoje o fundo é branco, não há pontos nem linhas, nem partes para destacar. hoje inundei-me de luz. inteira.





[foto: homem aranha]
abrindo
e fechando
fria
a quente

suspension of disbelief
não sei se é mesmo mar a musselina azul e se são ondas as riscas brancas que me cruzam o peito. sei que me encarregaram dos efeitos especiais e de temperar a água abrindo e fechando as torneiras. ora a fria ora a quente.

antecâmara
não via as paredes mas adivinhava-as altas, imensas, longínquas. os seus passos todos não chegavam para as alcançar. a soma de todos os seus passos, multiplicada por todas as intenções. muito menos os braços, curtos, que para pouco mais serviam que para lastro. os fenómenos da gravidade. adivinhava as paredes, na sua cegueira forçada, pelo ricochetear das palavras, devolvidas em fogo cruzado de um canto e do outro. está aí alguém? assim sem cor, sem luz, sem forma, o corpo afigurava-se-lhe pequeno e grande ao mesmo tempo. deteve-se um momento na ambiguidade. pequeno como um grão de pó. grande. enorme. maior que todas as coisas. maior que as coisas maiores. uma impossibilidade física. a menos que.
deitou-se no chão liso, inexpressivo, que o acolheu durante o esforço que fez por recordar. os círculos, os quadrados, os cubos, o cubo, o corpo. nem um som. não via a mancha branca de tinta que se agarrara à pele. não via a pele. estranho espelho aquele que lhe devolvia a nudez da alma. esbugalhou os olhos. então era assim que se era por dentro. nada. onde estariam as coisas que arquivara meticulosamente? e as que remetera para arquivo morto? não podia estar dentro. em algum sítio devia haver uma fresta por onde entrasse luz, uma reentrância que contrariasse a lisura, que detivesse o gesto. fez-se ao caminho, parando de vez em quando para se certificar de que o chão ainda lhe segurava os passos.
caixa negra

palíndromo
quando era pequena tinha um caleidoscópio redondo com um padrão por fora que parece que agora voltou. eram assim como riscas, gordas e magras, castanhas, laranja, riscas às ondas ou cornucópias, cornucópias com riscas. ou talvez fossem flores, não me lembro bem.
dentro tinha três espelhos que não me atrevi nunca a desmontar, embora muitas vezes tivesse tirado a tampa ao caleidoscópio e esvaziado as missangas e os papelinhos sobre uma mesa. a tampa era de plástico branco quase transparente mas não completamente.
e depois de dissecar o caleidoscópio pensava nesta coisa estranha e maravilhosa que é haver coisas físicas em que se pega e toca e que chocam entre si e as mesmas coisas físicas poderem ser a mesma coisa e outra coisa ao mesmo tempo. e pensava também se no meu próprio movimento circular seria como uma missanga a bater contra um espelho.