soltou-se da boca presa ao pé o dente de leão subiu pela teia soprado pelo tempo sem vento seria
e, na urgência da linha, esticou-se, em pontas, espreguiçou-se. depois baixou-se e descalçou-se. percorreu-a em sentido inverso, saboreando cada corpo de cada letra com a planta dos pés. seixos que tocavam todos os pontos do seu próprio corpo. os sons lambendo-lhe o cansaço como um rio em sentido contrário. um dia aprenderia a ler com a pele.
a deus
viva no verso da sombra no terço do dia descubro outras metades
apneia
olha o reflexo no lado de dentro das minhas pálpebras os dias liquefeitos e povoados por polvos estradas sem curvas corpos sem estradas mãos amputadas de tinta ideias amputadas de mãos e, do lado de fora, o ar que preenche o resto dos dias corpos inteiros de pulmões cheios
imagem: fotograma do filme "wide awake" de alan berliner
com um golpe de asa cortaste-me, temperaste-me, sorveste-me, serviste-me uvas lavadas na água da chuva e disseste-me que as asas molhadas também engolem a distância
here comes the sun um beijo no umbigo do dia
campainha vou escrever muitas vezes a mesma frase à mão fechar fonemas à chave num papel e arquivá-lo entre duas teclas volto já
obs. há um homem que se cruza no meu caminho todos os dias em sítios improváveis. tem um andar rápido, decidido, e um olhar de quem já chegou antes das pernas e descansa à espera que o corpo se junte a ele. geralmente vejo-o na estrada das vinte e oito oliveiras. uma recta comprida, sem passeio, com vinte e oito árvores velhas e raquíticas, sem o brilho lustroso das centenárias que plantam nas rotundas. estas, pelo contrário, parecem crescer sobre o muro de pedra, sem terra que lhes alimente as raízes. será certamente uma ilusão de óptica provocada pela diferença de cota do terreno por detrás do muro. o homem tem um ombro ligeiramente descaído.
são muitos os canais da esperança uns secos e quebradiços, estreitos outros largos e cheios de ar, túneis de vento
atrevo-me a ser seiva e abrir pelas veredas tortas madeira morta, branca, que o mar cuspiu para terra
arritmias
tenho um coração externo que pulsa se o outro pára a minha vida é como uma corrida de estafetas arranco ritmos a pedras, paus, sombras e sopros arritmias controladas
faz hoje anos que o mundo é mundo
pelo menos para mim
*patente na associação cultural Mercado Negro, em Aveiro, até 19 de Outubro. 3ª a Sábado: 13h - 00h Domingo: 15h - 00h R. João Mendonça, 17 3800-200 Aveiro
ofereceram-me um avental para a alma. faltam-me as luvas para abrir o forno.
escrevi-te uma carta. desenhei todas as letras de cada palavra sem levantar a caneta do papel (os tês e os is não contam). fechei o sobrescrito. agora têm umas tiras autocolantes e o valor do selo já impresso. saí com um vazio nas mãos, um buraco no sítio dos gestos sem peso. tapei-o com a senha da minha vez. sou a seguir.
como é que era mesmo? duas voltas para a direita, não, duas voltas para a esquerda. tonta, tonta. tocaste-me na ponta do nariz. o choque. ligada à terra com a chave na mão, sou condutora de electrões. é entrar, é entrar. cuidado com as correntes de ar.
raízes de flores comestíveis entra. o universo não tem porta. estava a fazer uma salada. queres?