mary-go-round

a cada volta aquela lâmina de luz e de esperança
no fim
o vislumbre do que seria o futuro
se a lâmina não fosse romba
se não fosse só a mim que fizesse sangrar
se o carrossel parasse no enfiamento daquela estrada
se o carrossel parassese tu entretanto não descesses a rua
se eu não descesse demasiado tonta
as mãos pegajosas do gelado que escorreu e secou
o sabor da infância nas minhas mãos sujas
a doçura esfregada nas calças por ser incómoda
por ser pegajosa
por já não ser doçura pura
a vergonha de estender a minhas mãos sujas
de doçura pegajosa

(no ciclo comecei a aprender inglês com o livro de capa cor-de-laranja
um carrossel na capa
e a professora alice olga que me proibiu de estudar
comecei também a desenhar grandes círculos em cima dos is

em educação visual tentaram desenhar o meu retrato 
e eu que não gostava do antónio miguel 
porque era dos que dava apalpões
cada dia levava um penteado diferente 
para que não conseguisse roubar-me o contorno
o contorno dele era facílimo de desenhar
um grande círculo duas orelhas pequenas dois olhos muito juntos
o contorno dos rapazes é sempre mais fácil de desenhar

mais tarde prometeram fotografar-me
depois prometeram desenhar-me
depois prometeram fotografar-me – ainda no tempo da película
depois prometeram fixar-me em polaroids e prometeram desenhar-me
depois prometeram desenhar-me
rapazes

o meu contorno deve escorrer e secar 
de cada vez que me atiram uma promessa destas
esfregam-me às calças
fico disforme e pegajosa
esfregam-me às calças para se livrar de mim)