futuro

quando nasci quase me esqueci de trazer
o meu presente comigo
os dias todos da minha vida
pequenos papéis vegetais
páginas de um livro por coser

antes de nascer costumava sobrepô-las
em múltiplas combinações
ao alto
ao baixo
desencontradas
formando mapas de cidades muito diferentes
mais dispersas mais concentradas
mas todas centrífugas

antes de nascer parecia fácil escavar as ruas
da minha cidade
não sabia que as teria de escavar
dentro de mim
não sabia que a cidade era só eu
e que haveria de ser eu
a única habitante de todas as casas
a guardiã de todos os jardins
a origem de todas as sombras

talvez por isso hoje não pertença
a parte nenhuma

deixei a cidade a meio
revolta
estaleiro de equívocos
andaimes incertos a segurar o céu
jogo de espelhos puídos
onde raramente me reconheço
onde confundo direito com avesso
dentro e fora longe e perto
tarde e cedo quente e frio

deixei a cidade a meio
abandonada
alimento-me do papel
que me corta os dedos
e me lembra que são dias
estes dias de nada
nasceu tetraplégica
num corpo que se move
penteia-se ao espelho
não sabe de que lado está
penteia-se em espelho
o risco do lado errado
a mão errada no risco
desdobra dias
como pratas de chocolate
abrem-se e alisam-se com os dedos
e depois, se não se rasgarem,
com a unha do polegar
até ficarem quase novos
vive os dias ao contrário
quarto azul
 
da próxima vez manda-me a chave da caixa
onde guardaste as polaroids in
decentes
e os gritos e os gemidos
cuidadosamente embrulhados
em papel de manteiga com um atilho
em cruz
prometo que digo à pandora
para sair
enquanto eu sor
ver
cada imagem in
decente
com os olhos de dentro e de fora
os olhos dos dedos e os olhos dos doidos
enquanto a pandora, lá fora à chuva,
se molha
e eu molho os bis
coitos
no chá
para os amole
ser


what's new?
paredes de papel, cortinas de betão.
sonhos pesados a conta gotas.


what's new?
desertos inundados.
promessa de vida a prazo.


what's new?
a cama desfeita.
lençóis de lava tatuados por dentro.


what's new?
gelados de verões passados
ao sol.


what's new?
os dias com o canto superior esquerdo rasgado.
ingresso no mesmo.


















long gone summer
on the mountain slope
my eyes have stopped 
collecting goodbyes
colours fall frail from tall branches
ripe
carpeting my way up with crispy clouds



7 de outubro, 2007

encontro
entreabro os lábios para falar, mas as palavras encavalitam-se, escondem-se em reticências e reaparecem em frases desconexas. a gramática reage mal quando outras linguagens interferem no discurso. um carro que passa e o olhar que se desvia, o peso dos dias verdadeiros, o grande buraco negro das expectativas, para onde convergem telhados, paredes e árvores arrancadas pela raiz. pura estática. ruído cósmico.
aninho-me no teu abraço, a cara encostada ao teu peito, e leio-te assim em silêncio cada uma das páginas deste meu devir.
no dia seguinte. no dia seguinte ainda lá estamos, como uma estátua num jardim que arrasta histórias que ninguém conhece. eu aninhada no teu abraço e tu pacientemente preso às palavras que nunca direi, traduzindo cada uma em movimentos quase imperceptíveis do corpo e no som da respiração.
na verdade. na verdade nunca de lá saímos. estivemos sempre nesse lugar sem espaço nem tempo. eu cosendo o silêncio com os sorrisos que trocamos, tu tradutor do indizível, a colar legendas do mundo a cada nova interrogação. ensinaste-me a decifrar, lembraste-me como se fazia. é muito simples, tens toda a razão. passarei a trazer sempre pedrinhas pequenas no bolso para atirar à tua janela. e, já agora, para marcar o caminho, caso me perca no labirinto de sebes altas que me levou até ti.



se os dias pudessem desdobrar-se em bolsos
pegava na minha máscara sorridente
de contraplacado marítimo
resistente à água salgada e às intempéries
serrava-a em cem peças de tangram
e deixava-a guardada para sempre
e às suas infinitas figuras em potência
depois escorregava por ti abaixo
líquida, longa e luminosa
para que me bebesses às escuras
mil folhas

um pássaro sublinhado
um bilhete de cinema
os teus olhos nas palavras
antes dos meus

a luz fere
nos dias claros
e o chão esconde
armadilhas de corda

doces biombos
cobrem e descobrem
esconderijos
muitos passos à minha frente

tenho
muitos espaços à minha frente


armadura

luto
luta
luto
luta
luto
luta
luto
luta
luto
luta
luto
luta
luto

tenho a boca colada ao coração
sou uma impossibilidade an
atómica
um sopro desfaz-se em partículas
na mecânica dos movimentos
um bater cardíaco desfaz em sopros
cada pa
lavra, cada frase, cada fonema
e neste processo alquímico circular
vou-me
apagando anulando diluindo
refazendo redizendo renascendo
como um fósforo que se extingue
para poder ver o caminho
visita

abres-me janelas nas semanas
que me dispensam em lamelas compridas
não sei como fazes
se trepas pelos ramos que escaparam
à motosserra
como prevenção de outros vendavais
ou se consegues ver o vidro redondo
e embaciado
da clara
bóia
onde vou ensaiando pequenos sorrisos
com o indicador
quando me apanho sozinha
(o vidro que não existe
nesta empena que uso como fachada)
tiras-me da minha tanatose
no parênteses dos teus braços
sou sem ter de saber o quê
estou sem perceber que cheguei
vou sem sobressaltos
bicho da seda


não é mais que um zumbido no meu ouvido a tua
presença ou a presença da tua
ausência
um zumbido, um zoar, um zunir
sem sentido e sem dor
não é mais que a inevitável promessa de uma
morte lenta
apesar de saber que dos casulos
que laboriosamente teces poderia talvez
poderia talvez um dia
poderia talvez um dia se eu quisesse
extrair algo de belo se me apetecesse, mas
repugna-me a tua pele repugna-me o teu
movimento
eu
que subo às árvores para colher folhas
verdes
com as quais filtro a minha
luz
as mesmas folhas
verdes
que tu mastigas e digeres

não te quero a viver debaixo da minha cama
podes morrer com ou sem asas que já não me importo

deitar

ouvem-se os pios dos mochos

como alinhavos na noite que gela
e de dia, para pasmo de todos,
vêm do nada papagaios verdes
posar para nós sobre os ramos nus
as árvores, carregadas de ouriços,
parecem de prata sempre que chove
aqui geralmente
os homens andam de boca aberta
alguns mesmo de língua pendurada
e as mulheres, imóveis,
trazem a boca blindada
ambos ocupam e desocupam cadeiras,
camas, corredores e degraus

palmeiras órfãs de trópicos
espreguiçadeiras órfãs de piscina

e eu, órfã de alice,
aqui estou sentada no muro
o meu muro articulado
com resguardo

e ao lado
a ceia de chá e bolachas maria
rodilha


voltei à terra plana, ao marco zero
capinei, desbastei, aplanei, nivelei
alisei cada centímetro de solo
com as minhas próprias mãos
e carreguei cada pedra para o topo
para que ficassem mais longe da vista
como cerejas num bolo, como um jardim zen
estou cansada mas contente: tenho a casa arrumada
seria mais fácil caminhar agora
não fora
ter sobre mim tudo o que sobrou
num enorme funil que trago preso à cabeça

dei entrada

receberam-me com sorrisos e em bom português
tive direito a bolo porque alguém fez anos
revistaram-me a mala com sorrisos
levaram-me a carteira com sorrisos
e o corta-unhas
servem-me saúde em copinhos
a tensão está óptima
já a atenção tende a divergir
para um buraco negro
onde pareço caber inteira
a nesga da porta da casa de banho
um buraco vertical
uma tira de mim
watermelon sunrise

era um sol que se esvaía em água.
caminhávamos sobre as poças 
divertidos com aquele jogo da glória,
inebriados com a doçura do cheiro a fruta fora de época.
era o dia que de novo nascia
e outro dia e outro dia,
como se a luz se sucedesse só para nós, 
os privilegiados, os futuros, os passados, os presentes,
os mais-que-perfeitos.
eu fiquei presa numa poça
percebi que o líquido era viscoso, o cheiro artificial,
que o teu sorriso era feio
quando visto de trás,

que o teu sorriso não trazia uma mão agarrada,
nem um pau,
nem uma pedra,
nada.
e que a tua marcha só tinha uma direcção.
a tua direcção.
fiquei presa na poça.
masquei cada pedaço de terra cor-de-rosa

até que perdesse o sabor e a aderência
com o antídoto da minha saliva, com a perícia da minha língua.
e fiquei com sede.
com muita muita sede.
a morrer de sede.
só sede.
lista de casamento

eu não quero um sofá Chateau d’Ax
châteaux tem chapeau, para já
não quero o meu rabo a roçar em pele Family®
quero roçar-me em cem por cento algodão
não quero sentares sintéticos
não quero design inestético
não quero déperlant
quero um sofá que me coma as nódoas e o corpo
abandoná-lo em puro des conforto
e segu ir
decanter
gostava de saber de cor todas as espécie de pássaros, todos os países do mundo, todos os tipos de nuvens, todos os nomes de ventos, todos os afluentes de todos os rios, todas as letras e acordes de todas as canções, todos os versos de todos os poemas, todas as pontes e miradouros, todos os traços de todos os rostos, todas as linhas de todas as mãos, todas as receitas, todas as mezinhas, todos os percursos de todos os pontos para todos os lados, todos os horários de todos os transportes, todos os tipos de papel, todas as línguas de todos os povos, todas as pedras semi-preciosas, todos os comandos, todos os passos de dança, todas as árias do bel-canto, todos os ossos e todos os músculos de todos os seres sem existência, todas as anatomias de todas as vozes, todos os ângulos, todas as inflexões, todas as temperaturas, todos os abismos e promontórios, todas as geometrias, todos os sedimentos, tudo o que mate a sede
o dia está amarelo
o ar comprime emplastros contra a pele húmida
benevolente
a casa recebe-me com uma janela de luz

entro e não fecho a porta

num quarto uma criança dorme
noutro quarto um homem morre
ambos os sopros se confundem
num diálogo inaudível
o sopro da existência que desiste
o sopro da inocência que resiste



(8 de julho de 2010)