na piscina azul
bóiam bolas, baldes, pranchas
e armas de criança.
a água embala-as,
adormece-lhes os tiros de água
enquanto os risos e os gritos
se lançam na sua trajectória ascendente
rumo à terra do nunca.
em breve todos estarão a dormir
enquanto um ou outro carro passa
um ou outro mocho pia
um ou outro velho morre
um ou outro ladrão vê
qual a melhor maneira
de arrombar o portão verde.
prendeu-se um fio numa cerca que saltou com toda a graça e cuidado, mas a corça saltou do telhado e era só aparente a leveza. o vento engolia a distância. viu-se nuvem sem o novelo que, sem ver, se esvaía em vermelho. sem nós, sem a malha repuxada, o chão sabia-lhe a nada, o pêlo a penas de garça, a corrida a devoção e as constelações a novenas que alguém ali pusera em seu nome. quando parou era uma árvore velha e oca, alimentada por correntes de ar, coberta de folhas que escondiam um ninho e com raízes profundas, até ao centro do mundo. sem seiva, mas teimosa de vida, pulsando dias secos de céu azul.
live action
foi assim: numa tarde de fim, encostei a via verde ao vidro e em vez de travar acelerei, em direcção à cabina ao lado. rebentei com a cancela.
foi só assim, só narrativa, sem poesia e sem testemunhas, sem claquete, sem repetição.
atrás de mim ficou uma extensa ficha técnica que não vi, desenrolando-se por um tempo que não determinei, lida por alguém que não conheço e com um parágrafo de agradecimentos por tudo e por nada.
soube bem ser protagonista.
espelho

– Vá, sobe.
A voz parecia diferente. Menos grave, talvez. Era uma voz feita de braços, mãos, dedos, ombro. Subiu.
– Vês?
Não via. O escadote hesitava e a cada balanço as pálpebras aumentavam exponencialmente de peso, tornando-lhe impossível abrir os olhos. Tacteou o resto da subida.
– Vês?
Fugiu das lascas do escadote para a superfície lisa e gelada a que este se apoiava e consolou as palmas das mãos. Ao chegar à aresta, percebeu que também o seu corpo deveria dobrar-se em ângulo recto para que as pernas pudessem juntar-se àquele movimento subitamente horizontal.
– Vês?
Lá em cima, dobrou-se como um metro de madeira. Desdobrou-se. Virou-se. Sentiu a respiração embaciar a superfície. Limpou a humidade com a mão e a mão à pele. Fechou-se como um feto.
– Vês?
Não saberia dizer mais nada? Ou estariam os seus ouvidos a coar o resto das palavras? Os olhos ainda enterrados.
– Vês?
Lembrou-se dos gatos. Não gostava de gatos. Mas lembrou-se dos gatos. Lembrou-se das árvores. Do vento nas árvores. Das árvores jovens vergando com o vento. Lembrou-se de um documentário em que se via uma girafa a nascer. Lembrou-se dos frutos a brotar dos ramos das árvores, intumescentes.
– Vês?
Doíam-lhe os olhos. A luz branca feria-lhe as órbitas. Os braços em curtos semi-círculos tentavam estabilizar-lhe o corpo.
– Sim. Acho que sim.
Sobressaltou-se com a pontada de ar que sentiu nas costas e demorou alguns segundos a tentar perceber aquela lambidela de gigante gelado que lhe percorrera a coluna e depois as pernas em movimentos descontínuos.
– Já vais ver.
Um enorme pincel invisível cobria-lhe cada centímetro de pele com um líquido viscoso e frio. Como se uma nuvem carregada se roçasse querendo fazer-se vestido à força.
O frio apaziguou-lhe as pálpebras. Conseguia finalmente abri-las, mas conservou os olhos semi-cerrados enquanto contemplava o azul celeste do rio, ao fundo.
– Vês?
– Onde?
Tentou ver-se, mas as janelas, as paredes e as portas confundiam-se num padrão complexo de sobreposições oblíquas. Aqui e ali uma réstia de céu. Mais paredes, chaminés, alcatrão, carros, portas, janelas, paredes. Olhou em volta. As mesmas paredes, janelas, portas e chaminés. Mas quietos. Os mesmos carros e ruas. Quietos. Os mesmos buracos na estrada. Olhou de novo para si. O mesmo padrão. Olhou de novo para si. O mesmo padrão. A voz triunfante reflectida em lábios gretados, dentes, língua e saliva.

mercês

estou na estação
um negro alivia-se na esquina
e um mickey grafiti
shows me the finger
estou na estação
agora já não se compram bilhetes
é simples: carrega-se um cartão
(eu até tinha um cartão que me tinham dado
mas disseram-me que tinha caducado)
estou na estação
descobri à primeira
como manobrar os torniquetes
e vi que o pica já não pica
também já não se fuma na gaiola
e já ninguém viaja pendurado
agora o povo viaja sentado
sinto-me quase estrangeira
não sou daqui
quase não vou aqui
mas vou inteira

pós-revolução
dois aviões de guerra passam por cima do portão
e desaparecem atrás de um telhado
depois mais um e mais outro avião
videogames com o dinheiro do estado
são feios como o dia que se pôs
cortam o céu  às tiras como tesouras
e fazem um ruído estéril de lâmina romba
eu, pelo menos, estou doente
e não se nota
não poluo, não me imponho
e ainda sonho
mesmo que não voe
a cinza prendeu-se à teia
e eu, sem medo da aranha
enxotei-a para fora
tenho filmes e capítulos pela frente
filhos e casas para habitar
e vejo que as ervas estão em flor
flores feias são flores
mesmo que se enganem na cor
revolução

no quintal o limoeiro teima em carregar-se de limões
e a salsa espalha-se como erva daninha
mas não é
lá dentro
a minha mãe está no youtube
a aprender a pintar rosas
e a desenhar narizes
e eu a traduzir um romance
sobre pessoas infelizes
enquanto a chuva lava as ruas
(diz que é bom para as alergias)
e cancela programas de fim-de-semana
(visitas ao jardim zoológico
trocadas pela urgência do supermercado)
hoje é o feriado dos cravos
mas nem vê-los no continente
muitos aproveitam para ir ao cemitério
outros ficam em casa
presos a filmes requentados
alguns nunca se levantam
outros acordam sentados
prioridade nas rotundas

ainda vou ver o teu perfil de vez em quando, sim
para nada
e ainda sei o teu número de cor
para nada
mas já não me rejo pelas tuas horas
e muito menos pelas tuas desoras
um dia
há-de regressar a cor às minhas unhas
que trago, por estes dias, maltratadas
de tanto esgravatar para sair de dentro de mim
hei-de pintá-las de vermelho desejo
de sentir o rosto
de sentir no rosto
de sentir
e de os
tentar um sorriso menos amarelo
lá para junho, talvez
no tempo das cerejas
no tempo das cervejas
no tempo quente
no mês em que fui mãe
pela primeira vez
and they lived happily ever after

falta-me fazer uma coisa
ir ao baú das ideias
entrar pela porta da rua pedonal
e comprar aquela peça em espiral
que um dia imaginei sobre uma mesa
depois atirá-la ao chão e parti-la
fotografar cada caco
e inventariar cada sopro
que derrubou a minha casa inventada
não quero esquecer nada
quero lembrar-me de cada ferida
de cada mentira, de cada investida
de cada acto falhado
de cada gesto, de cada beijo
e do desejo
de nada
estou sozinha com o vento
a noite, o frio e o fumo.
nem os cães ladram
nem as nuvens sucumbem
à luz dos candeeiros de rua,
estrelas artificiais
penduradas em postes.
o sol não chegou
para acender as lanternas
fotovoltaicas
que se vão destruindo
ou despindo, não sei,
na sua dança redonda,
planetas apagados
de uma galáxia de poliéster.
comi chocolate e bebi café,
depreendo, por isso,
que estou aqui.
senti o frio como um raio-x,
depreendo, por isso, que estou.
não sei se algum dia serei,
se algum dia os meus gestos
se desprenderão da alma.
por enquanto não sou mais que uma esfera,
uma amálgama de matéria, reflexos e dor,
presa por dois fios prateados
muito finos e fortes,
ao tecto de um quarto
que reclama por luz.
há pássaros que cantam
nesta noite fria
nesta noite sem lua
nesta noite sem estrelas
coberta de nuvens agoirentas
cor-de-laranja
os cães ladram todas as noites
(toda a noite)
as rãs coaxam
mas pássaros não me lembro de ouvir
se não hoje
talvez estejam felizes
ou confusos
ou pedrados
ou talvez cantem para só mim
tenho duas almas que me prendem à vida
dois cordões de luz
presos ao fim do infinito
sou uma marioneta que abraça e que beija
e que finge ter pele e carne
em vez de pasta de papel
não como
alimento-me dos seus sorrisos e das suas birras
alimento-me das suas descobertas
ando à boca do palco
com passos quase perfeitos
da saída esquerda para a saída direita
e vice versa
os meus olhos não mexem
se não mexer o corpo todo
mas estou
ainda estou
aqui
neste lugar sem espaço nem tempo
neste chão e neste céu de amor
tocata
faz amanhã (sexta-feira santa) duas semanas, caiu-me um piano em cima. a culpa foi minha. fiquei perplexa a olhar para a improbabilidade de ver um piano no ar, a ser içado para uma janela que nunca antes vira aberta. o homem que agarrava a corda deve ter ficado perplexo por me ver ali parada e distraiu-se. ou assim. e o piano abraçou-me com as suas patas, fracturando-me vários ossos, fracturas expostas, feias. mordeu-me com os seus dentes brancos de madeira de tília que ficaram espalhados pelo chão à minha volta. cortou-me com a tensão das suas duzentas e trinta cordas de aço. estou em convalescença. envolvida em gesso branco que me dá comichão. as dores são muitas, mas o que mais me doeu foram todos os prelúdios, tocatas e fugas que se abateram sobre mim e que naquele piano não mais soarão.


strawberry passion

é elástica a dor
expande-se e comprime-se
de acordo com o seu acordo
mastigo-a compulsivamente
receio perder-lhe o sabor
mastigo-a com os ossos, com as veias, com os pulmões
perfuma-me
emulciona-me
pre
enche-me
o pára-brisas cheio de flores
pontua-me a estrada
migalhas de pão
e a lua perfeitamente centrada
na esquadria da janela
per
feição
hoje

fui
à
ama
dor
a
tapei-te os medos com ligaduras
embebidas em mel cicatrizante
meticulosamente arrancadas
à minha própria pele
dando nós pequenos
quase invisíveis
que não se prendessem na roupa
sorvi-te os grãos de ansiedade
como pólen que transformava em tempo
bebi-te as palavras ínvias
com os meus lábios feridos
que não chegaste a sentir
ficou-me o travo amargo na boca
a ferida no lugar da pele
e o frasco vazio do mel
que hei-de lavar com água quente
para aquecer as mãos
e reutilizar um dia
sem tampa
conta
minaste-me
a esperança
conta
minaste-me
as ruas
roubaste-me a voz
– menos a voz do sangue
que insiste em saltar sobre os escolhos,
profundo lençol freático de vida
que me prende a pele ao arame como molas –
tapaste o buraco no meu peito
com alcatrão a ferver
e hoje sinto sobre mim
a chaga aberta
de todas rodas de todos os carros
cheios de corpos
vazios de gente
todas as trajectórias
num atropelo constante
num atrope
lamento
sinto o corpo carbonizado
pela falta
pelo excesso
tenho de limpar do meu corpo uma cidade inteira
com todos os seus cruzamentos e intersecções
todos os seus lugares de estacionamento
todas as pessoas que se entrechocam
nos solavancos das horas
trazem esse teu olhar de estrada
quente e negro
vazio de céu
tenho de arrancar do meu corpo todos esses passos
até ser uma rua inteira e limpa outra vez
ladeada de jacarandás sem memória
que hão-de perfumar-me de anil os dias novos
afonia

tenho uma cavilha no coração
uma cavilha ou um botão
não distingo bem
por entre a dor
infecta e espessa
que se sobrepõe ao sangue
a dor de as coisas muito pequenas
pesarem muito mais que as grandes
colarem muito mais que as grandes
servirem muito mais que as grandes
estilhaçando-as

tenho algo no peito
onde não posso tocar
muito menos com a voz
sob pena de virar
gra
nada
sísifo

ainda as sinto
frias
as tuas mãos

duas feridas
nas minhas costas

não sinto a vertigem
não sinto o vértice
não senti a subida
senti o nada
sen
ti
o corpo em pedra
o corpo em cera

círio, cílio
fim do ciclo