decanter
gostava de saber de cor todas as espécie de pássaros, todos os países do mundo, todos os tipos de nuvens, todos os nomes de ventos, todos os afluentes de todos os rios, todas as letras e acordes de todas as canções, todos os versos de todos os poemas, todas as pontes e miradouros, todos os traços de todos os rostos, todas as linhas de todas as mãos, todas as receitas, todas as mezinhas, todos os percursos de todos os pontos para todos os lados, todos os horários de todos os transportes, todos os tipos de papel, todas as línguas de todos os povos, todas as pedras semi-preciosas, todos os comandos, todos os passos de dança, todas as árias do bel-canto, todos os ossos e todos os músculos de todos os seres sem existência, todas as anatomias de todas as vozes, todos os ângulos, todas as inflexões, todas as temperaturas, todos os abismos e promontórios, todas as geometrias, todos os sedimentos, tudo o que mate a sede
o dia está amarelo
o ar comprime emplastros contra a pele húmida
benevolente
a casa recebe-me com uma janela de luz

entro e não fecho a porta

num quarto uma criança dorme
noutro quarto um homem morre
ambos os sopros se confundem
num diálogo inaudível
o sopro da existência que desiste
o sopro da inocência que resiste



(8 de julho de 2010)
anamnese

sofro
de obstipação emocional unilateral
tenho de fazer um clister a uma aurícula e a um ventrículo
e de laquear a veia do nariz
para me vedar a coágulos e a cheiros espessos
e comer uvas
uvas lavadas na água da chuva
e comer maçãs
maçãs lavadas na água do mar
ir
com as marés
chegar
ao contrário das fases da lua
ficar
onde tudo permaneça em movimento
e
terno
tempo

não percebo estas temperaturas
estes assomos de calor que se viram do avesso
à velocidade das estrelas
e me espetam hipotermias debaixo da pele
não me desloco à mesma velocidade dos outros
a passadeira rolante parou
é o mundo que se desenrola atrás de mim
e eu cada vez mais curva, mais feto

consigo
tocar-lhe
ao
de
leve
espero que me nasçam novos sentidos
espero não renascer prematura
espero nascer perfeitinha
com os dedos todos
os órgãos arrumados nos sítios certos
o tempo arrumado no sítio certo
procuro um ponto de fuga nesta dimensão
não quero este espaço-tempo contínuo
esta e terna rel atividade
por enquanto
vou enrolando o mundo em bobine
no outro extremo
uma peça de tecido perfeita
para transformar em vestidos

quando tiver idade
casa alta

da janela da cozinha corre um céu até ao chão
(desprendem-se-me dos olhos constelações de pirilampos)
e o rio de mel que jorra das vozes pequeninas
junta-se à seiva das árvores
ao pulsar quente da terra
e a um corpo nu, líquido e frio
que já foi meu

visto-me de novo de casca
visto-me de vento, de concha, de casa
visto-me de porta e de degrau
sou levada pelo levante
descalça
com pés de gravilha
de estrada, de terra, de seixos
por muros, muralhas, montes, pontes, pinhais e montados
(ínfima sombra neste dia que se abre
como uma caixa que guarda um imenso clarão
e que demora a nivelar a cor do horizonte)

o voo espavorido das aves cobre-me de luz e de penas
e morre-me muitas vezes o mar quando chego
para poder renascer no tempo certo
a cada bater de asas
a cada derrocada de pedras
a cada sopro, cada choro
e a cada respiração


melides, 24 de agosto de 2012


















a walk in the woods

strange fruits and dead leaves
emerge proud and precarious
like metaphors
gently swaying in the summer breeze
mildly toxic, mildly sweet
invisible to the optimistic eye

unmoved by their slow decay
strong and brittle
so fiercely delicate
feeble, frail and yet so stern
they outlive
the occasional specks of colour
that life spits in my direction

rapazinhos
só me foram levar à escola no primeiro dia de aulas. não fiz pré, entrei para a primeira classe, mas já lia desde os quatro anos. a partir do segundo dia passei a ir sozinha, com a minha pasta cor-de-laranja e o cesto com o lanche, pelo passeio que contornava as pracetas, antes de os jardins terem dado lugar às flores de lata com rodas. tinha de atravessar apenas uma estrada preta, o resto do caminho parecia ter sido feito por medida para me levar à escola, e eu devia parecer uma espécie de judy garland com totós loiros. como já conhecia as letras, podia distrair-me à vontade com o cheiro dos lápis e do estojo, com a textura dos cadernos, com o tilintar das pulseiras da professora, com a inclinação da carteira que trazia o assento agarrado e com a extraordinária t-shirt dos marretas, muito brilhante de tão sintética, do menino sentado ao meu lado. pelo caminho apanhava umas flores cor-de-rosa que tinham dentro uma gota de um líquido doce. nunca menos de cinco ou seis. bem as provo agora, sempre que as vejo, mas ainda não encontrei uma que me devolvesse aquela sensação de doçura e pergunto-me se a terei perdido na minha boca.

frango com esparguete

dois corpos
dois copos vazios
um corpo
janelas fechadas
almas escancaradas
dois corpos
a mesa posta
o jogo na mesa
quatro pratos sujos
a televisão acesa
regime

um candeeiro redondo
improvisa-me uma lua
cortesia da autarquia
espero que alguém chegue
enquanto espero que a vida chegue
enquanto espero que portões se abram
para deixar passar a vida
com balões e bolas de sabão
um sorriso à prova de água
uma bicicleta sem rodinhas
uma paisagem perfeita em rolo
e um piquenique sem bolo
insónia

a cada inverso
da canção
des
cubro-me

Era uma vez um homem que vivia num umbigo

Um umbigo impecável, cicatrização perfeita, sem cotão, nem migalhas, nem qualquer tipo de desperdício. O homem passava os dias em círculos, acariciando os anéis concêntricos de carne ou embrenhado em estudos hipsométricos. Tudo o interessava naquele umbigo e quando subia à pequena elevação central, espécie de altar à existência, sentia-se o homem mais alto do mundo, embora os olhos esbarrassem na pele rosada e fina, quase imberbe. Dedicava também uma grande parte do tempo à higiene. Limpava o umbigo de alto a baixo, todos os dias, com produtos não abrasivos e um pano quadrado de microfibra com o tamanho ideal para a sua mão. Depois lavava o pano e lavava as mãos, num ritual quase religioso.

Não tolerava invasões de qualquer espécie àquele espaço sagrado. Não recebia amigos. O umbigo bastava-lhe. Amava o umbigo.

Por vezes olhava para cima. O exterior não lhe provocava grande curiosidade, mas fazia-o por uma questão de sociabilização que, segundo os especialistas, era essencial à sobrevivência humana. Confiava nos especialistas. Nesses dias vestia um pólo e umas calças e contemplava os fragmentos de pessoas que desfilavam pelo seu campo de visão. A visibilidade era reduzida, claro, mas achava graça ao facto de não ver mais do que via, desde que visse sempre o seu umbigo de qualquer ponto onde se encontrasse.

Desenvolveu uma linguagem muito própria que, escusado será dizer, esbarrava não poucas vezes na linguagem dos outros. Embates mais ou menos violentos, consoante a profundidade do umbigo a que se encontrava. Nesses dias nem o pólo, nem as calças lhe valiam. Ficava nu. Exposto. Totalmente vulnerável ao escrutínio alheio. Sacudia o incómodo com a desenvoltura das suas certezas e regressava à sua casa de carne.

Não cresceu muito, não podia. A alimentação pobre, quer para o estômago quer para o espírito, deixara-o raquítico, mas ao espelho era maior que qualquer moldura e achava que não havia, nem neste mundo nem em qualquer outro, espelhos suficientemente grandes para si.
Acabou por morrer de fome sem perceber. Quando adoeceu achou-se injustiçado e, ainda assim, teimava em não receber os cestos de comida, remédios, amor, música e livros que lhe tentavam, em vão, fazer descer com recurso a uma corda, ao fundo do seu umbigo.

Quando morreu cuidou que adormecia.
natureza morta

uma mulher de verde lava as portadas verdes
só a vejo quando passa pela parede
e enquanto lava
vejo um braço que acena
para dentro
da grande casa vazia
um pássaro pousa no cimo de um pinheiro
como uma estrela
simples enfeite
e hoje as nuvens resumem-se a riscos no céu
linhas brancas horizontais
pauta celeste por preencher
uma parte em diagonal da árvore-antena
como um tufão congelado no seu propósito
um sino dobra ave-marias gravadas
e a brisa desdobra-se em sopros estéreis
para empurrar um moinho de papel
ja
nela

um quarto branco
paredes brancas
chão branco
uma cama branca
uma c
ama branca
uma
arma branca
uma
ama
chão
pa
redes
dor dormente dor presente dor de dentes
dor de corno dor de sono dor de costas
dor de mágoa dor de água dor de amor
dor de peito dor sem jeito dor sem dor
dor de nada dor de fada dor de flor
dor de sentir dor de sorrir dor de não ser
dor de safo dor de sátiro dor de dar
dor de pé dor sentada dor espraiada
dor metástase dor anástrofe dor quiasmo
dor de asno dor de burro dor de murro
dor dor dor dor dor dor dor dor dor
dor dor dor dor dor dor dor dor dor
dor dor dor dor dor dor dor dor dor
dor dor dor dor dor dor dor dor dor
dor dor dor dor dor dor dor dor dor
dor dor dor dor dor dor dor dor dor
dor dor dor dor dor dor dor dor dor
dor dor dor dor dor dor dor dor dor
dor dor dor dor dor dor dor dor dor
dizer até perder a cor

canícula
são nove e meia mas não parece
está um calor que arrefece
entre voos de andorinha e tacadas
ouve-se um homem a cortar uma sebe
preferia ver vacas no verde
a homens iguais perseguindo buracos
uma colecção de sucessos
troféus com patas, inertes
eu continuo com má circulação
tenho as pernas feias, raiadas
os poros do avesso (é a explicação científica)
e vergonha de andar de saia
antes fosse motosserra
primeiro dia de verão

era um dia de lágrimas. assim se chamavam as tempestades naquele país, aquelas tempestades que parecem sacudir violentamente a terra e dividi-la em gomos como um brinquedo de plástico. ela, aguarela, afundava-se num sofá vermelho que, por acaso, encontrara no caminho, julgando poder assim proteger-se da chuva, os braços abraçando o braço do sofá. ao fim de pouco tempo a pele, o vestido branco e o vermelho do sofá deram lugar a uma só cor.
esteve ali muito tempo. ou pouco tempo. ou tempo nenhum, já que o tempo parecia ter estagnado naquela cor líquida.
pela porta verde do caminho entrou um sujeito impecável, impermeável, protegido por um paralelepípedo de plexiglas. como uma bisnaga, caminhava muito direito, sempre com a tampa enroscada e os rótulos irrepreensíveis. perguntou-lhe, acrílico, o que tinha, espremeu a expressão mais condoída que conseguiu, quis saber se podia ajudar. ela explicou que não, a menos que conseguisse desligar a tempestade que a ensopava e ele retorquiu que até ouvira falar da existência de um botão stop, mas não sabia onde se encontrava, se dentro se fora. a mancha liquefeita não parava de crescer e isso parecia incomodá-lo. fez-lho saber. sabes, eu sei que, mas. é que contigo aí não posso passar, seguir o meu caminho, percebes. não fica bem, eu que ando em linha recta, pôr-me agora com rodeios.
ela pediu-lhe um abraço. esperava, com isso, conseguir soltar-se das fibras vermelhas do sofá, respirar fundo e disfarçar os vincos do vestido. ele assentiu.
desprendeu da cintura um molho de chaves e abriu as duas fechaduras de cada uma das portinholas transparentes por onde fez passar os seus dois braços de polipropileno. abraçou-a como um aranhiço, um abraço sem espessura.
ela contentou-se, levantou-se e dirigiu-se a um espelho embaciado onde desenhou, com o indicador, dois olhos e uma boca. agradeceu e saiu de cena.
e de espectro espantado quando visto
passou a peso de balança
grande, castanho e ferrugento
obsoleto
maior que o prato
maior que o contrapeso
em desequilíbrio constante a um canto
devia ser coxa ou muda ou cega
e é, na verdade, tudo isso
coxa, muda e cega
traz os bolsos cheios de papéis rasgados
outros que não rasgou mas há-de fazê-lo
e traz as mãos sempre dentro dos bolsos
por não saber o que fazer com elas
muito menos com as impressões digitais
que deixam marcas
graffitis invisíveis de festas
que só se revelam nos vidros das janelas
nos copos e nos pedaços de fita cola
que corta com os dentes
e de cada vez que o faz
cai-lhe um dente
e um olho
e um braço
cai-lhe depois o coração
e o outro olho
o outro braço
as pernas há muito que fugiram
resta-lhe a pele de fingir
insuflada
que não é nada
mas há-de ser
uma coisa qualquer
festa

estou cheia de algodão doce
uma tristeza cor-de-rosa
pegajosa
presa a um pau
tenho artérias de açúcar
que me levantam os cantos da boca
e um coração esponjoso
em forma de marshmallow
sou querida
sou ferida
au
na piscina azul
bóiam bolas, baldes, pranchas
e armas de criança.
a água embala-as,
adormece-lhes os tiros de água
enquanto os risos e os gritos
se lançam na sua trajectória ascendente
rumo à terra do nunca.
em breve todos estarão a dormir
enquanto um ou outro carro passa
um ou outro mocho pia
um ou outro velho morre
um ou outro ladrão vê
qual a melhor maneira
de arrombar o portão verde.
prendeu-se um fio numa cerca que saltou com toda a graça e cuidado, mas a corça saltou do telhado e era só aparente a leveza. o vento engolia a distância. viu-se nuvem sem o novelo que, sem ver, se esvaía em vermelho. sem nós, sem a malha repuxada, o chão sabia-lhe a nada, o pêlo a penas de garça, a corrida a devoção e as constelações a novenas que alguém ali pusera em seu nome. quando parou era uma árvore velha e oca, alimentada por correntes de ar, coberta de folhas que escondiam um ninho e com raízes profundas, até ao centro do mundo. sem seiva, mas teimosa de vida, pulsando dias secos de céu azul.