para ficar perfeita uma parede azul exige muitas demãos de tinta,
mais ainda se for rugosa. cobrir de forma homogénea uma parede rugosa e
porosa, uma parede que chupa a tinta, exige força e acuidade visual,
persistência, bolhas abaixo dos dedos, onde chega o polegar, escaldão
nos ombros, se for verão. uma parede rugosa é um mapa topográfico, uma
maqueta de mundo que pode ferir, se nos escapar a mão. exige distância.
não falta, de longe, quem veja manchas, diferenças no tom, i
mperfeições. e proximidade. para cobrir cada vertente, cada abismo, cada cume, cada vale, depressão ou cavidade.
para ficar perfeita uma parede azul exige que cocemos o nariz com as
mãos sujas de tinta, que rocemos uma coxa na tinta fresca quando nos
levantamos para descansar os joelhos. que nos espreguicemos, longe, com
os braços em conta-gotas, antes de nos encavalitarmos no muro para
chegar os sítios mais altos. pingos de azul na cara, soprar os cabelos
do rosto, à falta de vento, moldar os pés nus às telhas quentes do sol,
barro com barro. para ficar perfeita uma parede azul exige minúcia de
joalheiro, mas também gestos largos e grosseiros. água, de tempos a
tempos, e uma cadeira de plástico por onde trepar e onde possamos
regressar.